Africa
16 Nov 2017

Deslizamento de terras na Serra Leoa — a revelação de uma promessa de conservação esquecida?

A Zona do Oeste inclui uma área significativa de floresta © Jude Fuhnwi
A Zona do Oeste inclui uma área significativa de floresta © Jude Fuhnwi
By Jude Fuhnwi

A Zona Oriental do Parque Nacional da Serra Leoa é uma reserva florestal, que contém ainda um dos últimos redutos de floresta intacta do país, e representa uma parte significativa da área total do Hotspot das Florestas Guineenses de África Oriental. O parque alberga inúmeras espécies e integra uma cadeia de colinas e montanhas íngremes, que fazem fronteira com a linha costeira do Atlântico.

O Fundo de Pareceria de Ecossistemas Críticos (CEPF) identificou esta reserva florestal única como uma das quatro áreas de biodiversidade mais importantes para o seu plano de investimento no Hotspot das Florestes Guineenses de África Ocidental, através da BirdLife International, a sua equipa de implementação regional.
Localizado nas imediações de Freetown, capital da Serra Leoa, este parque nacional tem uma área total de 17 quilómetros quadrados, com cerca de 60% da vegetação florestal ainda intacta. Está localizado ao centro da Área do Oeste da Península de Freetown, que alberga uma população estimada em cerca de um milhão e meio de pessoas. Estas pessoas beneficiam dos recursos naturais do parque, onde inúmeras espécies de plantas e de animais, especialmente aves, dependem desta floresta para sobreviver.

«Trata-se de uma floresta com valiosas espécies de plantas, que ajudam a regular o microclima local e que alberga as poucas espécies animais em risco de extinção que nos restam» disse Tommy Garnett, Chefe da equipa de implementação regional do CEPF no Hotspot das Florestas Guineenses da África Ocidental.

O desenvolvimento local está, contudo, a revelar-se uma grande ameaça para o futuro dos habitats e espécies que se encontram nesta floresta. Á medida que Freetown expande as suas fronteiras, esse desenvolvimento está a matar lentamente as florestas tropicais limítrofes.

«O que resta é apenas uma área muito pequena, e mesmo essa área está gravemente ameaçada», disse Tommy.

A pressão da população urbana, em crescimento, expôs a imensa biodiversidade desta floresta a inúmeras ameaças de intensidade crescente. A população invadiu a floresta protegida, em busca de terra arável e os agricultores limparam extensões de mato secundário, na periferia. A desflorestação e a exploração de pedreiras, muitas vezes conduzida ilegalmente, são outra ameaça aos recursos naturais da floresta. A pressão sobre a terra levou também a que se construísse em encostas baixas, de erosão fácil, expondo a vida de milhares de pessoas a desastres naturais.

«A urbanização dentro da área protegida é um enorme desafio para nós. O Parque Nacional da Área do Oeste da Península de Freetown fica muito próximo da cidade e toda gente quer ficar na cidade» disse Kate Karemo-Garnett, Diretora Executiva Interina da Autoridade para as Áreas Protegidas da Serra Leoa.

À medida que a cidade se expande para as florestas nas montanhas do parque nacional, a pressão da população está a danificar a floresta. Cortam-se árvores para limpar terrenos, para urbanização e para utilizar a madeira como combustível. As árvores previnem o escoamento de água e sedimentos e a florestas retém água. Porém, o abate de árvores está a aumentar o risco de deslizamentos de terra. Quando há queda de chuva prolongada ou intensa, em áreas sem árvores, o solo fica saturado e sofre erosão.

A urbanização está a ameaçar a floresta protegida © Jude Fuhnwi

Os apelos à contenção da expansão do povoamento nas colinas da Península, e a uma gestão adequada das empreitadas, foram em grande parte ignorados. Em agosto de 2017 uma encosta do Parque Nacional da Zona do Oeste colapsou, originando um deslizamento de terras na periferia de Freetown, que devastou comunidades inteiras, e matou centenas de pessoas soterrando mais de um milhar de vítimas que ficaram encurraladas em suas casas.

«As colinas são muito íngremes. Por isso, sempre que este tipo de cheias rápidas acontecem, acumula-se um grande volume de água no solo, que também não pode ser absorvida, porque a zona é rochosa, o que origina a saturação que julgamos ter estado na origem no deslizamento maciço do solo, depois da queda de chuva intensa que tivemos», explicou o Dr. Sheku Kamara, Diretor executivo do Parceiro da BirdLife na Serra Leoa, a Sociedade de Conservação da Serrra Leoa (CSSL).

Uma promessa esquecida

Os deslizamentos de terra são raros na Serra Leoa, mas os especialistas em conservação dizem que não foi surpresa nenhuma.

«Nós previmos isto e falámos sobre o assunto. Fizeram-se conferências e workshops. Surgiu até um projeto: «conservação da floresta da Zona do Oeste e dos seus recursos hídricos» que deveria supostamente demarcar os limites da floresta, identificar os seus recursos hídricos, e sensibilizar a população para a sua proteção. Quando projeto terminou, nós deveríamos ter indicações claras sobre a localização desses limites, mas isso não foi respeitado», sublinhou Tommy.

O deslizamento de terra ocorreu na cidade de Regent, na montanha, a 16 quilómetros de Freetown, depois de três dias de chuva torrencial. Muitos dos habitantes de Regent vivem em habitações ilegais, construídas em encostas, perto do parque nacional. Várias comunidades localizadas nas proximidades do parque nacional foram seriamente afetadas pelo desastre.

As florestas do Parque Nacional da Zona Oeste são importantes ecossistemas e a sua destruição deveria preocupar todos os grupos de conservação, e toda a gente que vive dentro ou perto da capital deste país da África Ocidental. Os grupos de conservação a trabalhar no terreno, tais como a Sociedade de Conservação da Serra Leoa e a Fundação Ambiental para África (EFA), estão a trabalhar para preservar este paraíso de biodiversidade, mas enfrentam vários desafios, de entre eles a falta de recursos.

O deslizamento de terras devastou inúmeros lares, mantando centenas de pessoas © Jude Fuhnwi

«Em termos jurídicos, desenvolvemos bastante trabalho com o governo e com a população, para nos assegurarmos de que alguns desses locais seriam evitados, por se tratar também de uma área de captação de água, da qual depende o fornecimento de água de toda a cidade. Mesmo os limites estão sempre a mudar. Fizemos demarcações de limites, as pessoas invadiram-nos e nós tivemos de os remarcar. Tentamos trabalhar com as pessoas de forma a dar-lhes motivos para não abaterem árvores» disse o Dr. Sheku.

O deslizamento de terra de 14 de agosto recordou a todas as partes envolvidas a necessidade de se criarem e manterem sistemas de proteção ambiental no país. Os conservacionistas têm todo o interesse no desenvolvimento de oportunidades que fomentem uma abordagem multilateral mais inclusiva e coordenada, para se encontrarem soluções duradoiras para estes problemas crescentes, e se salvar o Parque Nacional da Zona do Oeste.

«De momento, estamos a preparar-nos para uma conferência nacional, a conduzir apenas na Zona do Oeste da Península de Freetown. Com auxílio de um financiamento do CEPF, nós [Sociedade de Conservação da Serra Leoa], estamos a tentar reunir uma série de intervenientes, para podermos trabalhar juntos, constituindo-nos como uma frente unida para abordarmos os desafios que estamos a enfrentar e impedir que este tipo de desastre se repita», disse o Dr. Seku.

 

 

A Equipa de Implementação Regional (RIT) das Florestas Guineenses da África Ocidental (GFWA) é um projeto da BirdLife International, financiado pelo Fundo de Parceria de Ecossistemas Críticos (CEPF). O RIT é responsável pela gestão dos investimentos do CEPF (2016-2021) nos 11 países do Hotspot das Florestas Guineenses da África Ocidental.

O Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) é uma iniciativa conjunta da Agence Française de Developpement, Conservation International, da União Europeia, do Fundo Mundial para o Ambiente (GEF), do Governo do Japão, da Fundação MacArthur, e do Banco Mundial e um dos seus propósitos fundamentais é garantir o envolvimento da sociedade civil na conservação da biodiversidade.